quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O canto da sereia.

Era uma menina linda, de pele clara e aparentado ter uns 16 anos.
Suas pernas estavam à mostra e, no resto do corpo, parecia vestir apenas um longo casaco de mangas compridas. O rosto era belo e triste, os longos cabelos negros estavam em desalinho.
Estava parada num dos pontos do terminal Parobé no centro como quem espera um ônibus, junto um garoto, tão novo quanto ela que, quando se aproximava, era espantando.
Vieram vários coletivos, para vários rumos, ela permaneceu lá.
Chamava atenção de quem passava pelo contraste: o que fazia um ser tão belo e jovem, num ambiente tão feio e sujo como aquele numa bela manhã de domingo?
As horas se arrastavam, ela parecia não perceber de tão absorta em seus pensamentos. De vés em quando algum bom samaritano com boas intençãos, outros  nem tanto, se dirigiam a ela para oferecer ajuda. Foram tantos que ela já não respondia. Ficou naquele mudismo.
O garoto que a acompanhava ficou sentado no outro lado da rua, apenas olhando.
Eu fiquei curioso e perguntei a um dos verdureiros do hortomercado o que estava acontecendo. Um sabia e me confidenciou: Aquela menina tinha sido estuprada, não por um, mas por vários elementos que participam dos bondes que, infelizmente, estão infestando o centro da cidade.
Estava num dos vários inferninhos que permitem a presença de menores a noite toda e onde o estatuto do menor e adolescente não tem o mínimo efeito. Na saída, foi literalmente arrastada para trás das bancas do hortomercado, teve a roupa rasgada e seu corpo foi violado por mais de quinze jovens, alguns nem tanto. O rapaz era seu irmão e apanhou bastante.
Ao chegar, os verdureiros do hortomercado ficaram penalizados e um deles cedeu o casaco para ela se cobrir. Por baixo daquela peça de roupa não havia mais nada.
No final da manhã ela finalmente foi embora.
Meu espanto foi novamente vê-la num outro domingo, não parada, não tão triste, mas apenas de passagem pelo mesmo hortomercado. Junto dela, uma amiga tão jovem e bonita quanto. Morena apenas. Ambas estavam de pernas de fora, e digasse de passagem, que pernas! O viço da juventude retornara. Nenhuma usava casaco para esconder nada, ao contrário, usava uma mini blusa para mostrar mais ainda. No rosto a expressão típica de felicidade dos adolescentes. Não precisaram caminhar muito para encontrarem seus parceiros, dois robustos rapazes que não paravam de cochichar entre sí e coçar a genitália.
Ficaram um tempo alí, uns com a mão naquilo, outros com aquilo na mão. A cena beirava a pornografia.
Fiquei curioso e novamente perguntei ao verdureiro o que estava acontecendo afinal.
- Ela mentiu quando disse que foi estuprada? Tinha gostado e por isso voltara?
- não - ele me disse - foi estuprada sim, naquele ponto e por todos aqueles caras, mas ela não era tão vítima assim. Ou era, de acordo com o ponto de vista de cada um. Na realidade a moça era filha de uma família bem estruturada, de classe média. Muito cedo, por influência dos colegas de colégio, começou a frequentar os bares do centro. Muito cedo também, por influência dos mesmo colegas, virou usuária de drogas de todo tipo. Cocaína e crack faziam parte do seu, digamos, cardápio. O estupro propriamente dito ocorreu porque ela foi convidada para consumir mais drogas entre as bancas de frutas e lá foi surpreendida por vários elementos. Seu papel agora era servir de isca para atrair novos clientes. Cabia a ela convidar outras colegas de escola, de trabalho - se por acaso trabalhase - ou rapazes, para curtir a noite e apresentalos ao maravilhoso mundo das drogas, caso contráro teria seu fornecimento suspenso e seria de novo violada, ou algo pior.
Novamente olhei para ela e pensei: seria díficel resistir a aqueles encantos e infeliz daqueles coitados se tentase resistir ao canto da sereia.
Nisto ela some, junto com a outra moça, mais os rapazes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário