domingo, 22 de novembro de 2009

Um senhor suspeito.

Um senhor suspeito.




Desde cedo, num instinto de autodefesa, aprendi a identificar certos traços da personalidade humana bastando olhar o sujeito. Com o tempo, ao ser tardiamente alfabetizado, aprimorei este critério observando os atos desta pessoa, como ela se relaciona com o mundo – mais importante que isso, como ela se relaciona com aqueles que lhe são próximos – e também como ela se relaciona com os outros, qual sua contribuição que deixará para a humanidade. Me defino como curioso no meu perfil e esta auto avaliação não foi posta a toa.

Você pode viver harmoniosamente com seu semelhante para tornar o mundo melhor para todos e, para isso, é preciso, antes de tudo, respeito e compaixão. Uma coisa anda de mão dada com a outra.

O egoísmo, o ódio, a intolerância, o preconceito e a covardia são os piores defeitos que uma pessoa pode ter e tudo isto é alimentado pela pura e simples ignorância.

A ignorância cega, a ignorância mata.

Procuro andar a margem deste tipo de pessoa. Corro até, mas não adianta, eles estão ai cumprindo seu papel de desmontar para que outros construam, de difamar, para que outros façam a reparação, de machucar, para que outros dêem assistência.

E todo o covarde gosta de fazer seu nome nas costas dos mais fracos. São neles que os covardes descarregam suas frustrações, sua incompetência, sua arrogância e sua submissão resignada ante aqueles que o subjuga.

Mesmo em posição privilegiada aos demais, eles têm que se assegurar que mais ninguém cresça, nem socialmente nem financeiramente, a sua volta para que no futuro tenham a quem humilhar. Eles ficam cegos, e na cegueira, não percebem o quão mal fazem para si próprios e para todos que estão à volta. Afinal tudo o que se deseja ao seu semelhante pode voltar em dobro.

Muitos nasceram amargos, outros tornam-se amargos.

Uns só sabem apontar os erros nos outros, sem jamais fazer nada para ajudar. Apenas apontam o dedo e criticam.

E como é fácil criticar!.

Tenho pena destes. Jamais agradecerão a Deus, ao se espreguiçar, por mais um belo dia de sol, especialmente quando de folga; não escutarão a algazarra alegre dos pássaros, em seus ninhos no alto do arvoredo, em comemoração ao novo ciclo que se segue; nem saberão agradar uma criança; não verão graça na peraltice de um bichano; nem retribuirão a amizade sincera de um cachorro.

Não, nunca estarão contentes. Só reclamarão que, ora o dia está quente, ora está frio; que o serviço é um fardo, o chefe, um facínora, os colegas, um saco; Que o barulho dos pássaros os impede de dormir; que as arvores só servem para sujar as calçadas; que crianças servem apenas para chorar; que os gatos não servem para nada, exceto miar noite adentro e pular sobre o telhado das casas; e que a função dos cachorros é apenas aterrorizar.

É desta forma que começo a enxergar o eventual jornalista e ilustre desconhecido deputado Políbio Braga, Ah, ia esquecendo - de tão pouca significância que este senhor tem na vida da grande maioria da população - economista também.

Pois bem, se ele não tem nenhuma importância por que perder meu tempo com esta longa introdução?

Acontece que, como dito anteriormente, dentre as coisas que mais me irritam, a ignorância e também a arrogância, não merecem passar sem resposta, principalmente quando expõe toda uma categoria de trabalhadores ao preconceito,ao ridículo e ao escárnio.

Pois bem, foi isto que este senhor fez, ao se referir em seu blog (http://polibiobraga.blogspot.com/2009/01/bilhetagem-eletrnica-acabou-com-evaso.html) que, até a implantação do sistema de bilhetagem eletrônica, o TRI, na capital, e o TEU, na região metropolitana, havia uma roubalheira generalizada no interior dos coletivos e patrocinada pelos rodoviários, gerando um prejuízo para as empresas de ônibus em mais de 30 milhões de Reais anuais.

Pela preocupação do economista, percebe-se o alvo de suas atenções e considerações.

Como economista ele apenas enxerga números, nada mais que isto. Tudo é estatística, planilhas, zeros à esquerda, zeros à direita. Ele não tem a obrigação de saber que a categoria dos rodoviários é formada por gente, e das mais diferentes qualificações. Tem de tudo um pouco, inclusive ladrões.

Têm nome também: seu Zé, seu João, Francisco, Eduardo, Glauber, Macedo, Alberto, Carrion, etc, etc, etc, e tal.

Tirando os ladrões, que são poucos e não duram muito, pois as empresas de transporte de passageiros tem mecanismos nem sempre justos para evitar a proliferação deste tipo de funcionário, em alguns casos basta a desconfiança para a demissão sumária, sobram dedicados trabalhadores que escolheram esta profissão não apenas como ganha-pão, mas por que gostam daquilo que fazem. Não por outro motivo atualmente a qualificação profissional dos rodoviários é bem ampla, temos ex-bancários, ex-escriturários, ex-policiais, ex-vendedores, ex-radialistas, ex-professores. Não raro, alguns contam com diploma, mas não com oportunidade na área em que são formados, ou desistem de seguir a carreira devido ao pouco rendimento. A exigência escolar mínima para os cobradores é o segundo grau completo, para os motoristas, a prioridade até então era a sua experiência na direção e mesmo assim as empresas já estão exigindo igual escolaridade.

Não interessa ao ilustre economista saber que o patrimônio adquirido por cobradores e motoristas é conquistado todo o dia a custa de muito esforço, às vezes trabalhando em dois empregos ao mesmo tempo, para conseguir ter uma boa casa ou um bom carro. E muitos ainda custeiam o ensino superior de seus filhos para que estes não tenham uma vida tão sofrida e por vezes humilhante.

Jamais arriscariam perder seu emprego por tão pouco usurpado da roleta.

Tem mais:

Evidentemente o senhor Políbio Braga sabe o que é macroeconomia. Explico para os demais: muita gente depende da categoria para se sustentar, principalmente desempregados, formando um ciclo que movimenta a economia de forma local ou de uma micro-região. São as Rosas da vida, as “tias” que muito cedo tem que levantar e preparar vários lanches e café para por a venda nas garagens e terminais. Com este rendimento conseguem o suficiente para se manter quando estão desempregadas, muitas ainda tem outras pessoas dependem delas também. Existem bares, lancherias, comércios de inúmeros produtos que sobrevivem graças aos rodoviários e as tias.

Como economista, afeito à estatística, ele deve desconhece quem foi Nery Gonçalves ou um certo motorista Forte. Dois nomes que são apenas números nas estatística policiais.

Pois bem, o primeiro, natural de Rio Grande, veio trabalhar na capital como motorista na empresa VAP para ajudar a custear a educação da filha na faculdade de direito de uma universidade privada. Quando finalmente se aposentou, recebeu apenas o primeiro mês. Não pensava em parar ainda, havia a pouco contraído uma dívida junto a Caixa Federal para aquisição de um apartamento em Porto Alegre. Queria uma aposentadoria tranqüila, sem pagar aluguel. Pouco antes do natal de 2006 foi alvejado com um tiro no rosto num assalto no bairro Safira por dois jovens que queriam dinheiro para consumir drogas.

Quanto ao Forte, da Sudeste transporte coletivo, era uma pessoa tranqüila, sem boca para nada e ficha funcional limpa. Naquele ano tinha motivos para comemorar: Fora promovido da roleta para à direção e sua companheira estava no terceiro mês de gestação. Infelizmente não pode comemorar o quarto mês da promoção, nem ver o filho nascer: fora também abatido com um tiro enquanto manobrava o ônibus para recolher para a garagem em sua última viagem na linha Alameda, véspera de natal, por outros dois jovens que queriam a féria do dia para, igualmente, consumir drogas.

Um encerrando a carreira, outro iniciando, e ambos mortos de forma igual.

Pior, isto é rotina na profissão.

Mas, se como economista, o senhor Políbio Braga pode se eximir de qualquer responsabilidade sobre estes temas marginais, então vamos apelar para o seu lado parlamentar. Deste, ele não pode fugir. Ele tem responsabilidades com a sociedade que o elegeu e esperam dele mais do que palavras e estatísticas. A não ser que ele considere apenas uma parte da sociedade detentora de sua consideração, aquela que lhe afiançou a campanha.

Pois bem, esta “roubalheira” a qual se refere o deputado nada mais é que o fruto do descaso que sucessivos governos trataram e tratam da educação deste país, onde os valores morais e éticos foram pro espaço faz tempo e políticos - tão afáveis e cheios de projetos em épocas eleitorais - passada as eleições, fecham-se em seus gabinetes na calada da noite para tratar de temas estranhos a sociedade, mas de enorme importância para si.

Nem por isso posso chamar todos os políticos de ladrão – não, seria preconceito -, eles são apenas a representação da sociedade. Tem ladrão lá, como têm alguns que honram o voto recebido.

É estranho logo um político achar ter moral para criticar quem quer que seja. Não digo ser o caso deste senhor, mas o nobre deputado circula nos mesmos corredores onde vários de seus pares são acusados de desvio de dinheiro, inclusive de tirar a merenda escolar da boca de crianças, formação de quadrilha e evasão de divisas e, simplesmente, continuam impunes, certos da complacência de seus “colegas”, dando novo sentido a bela oração de São Francisco na parte em que diz “que é dando que se recebe”.

Porque para estes o deputado não volta sua ira e prefere grudar no pé de pessoas sofridas que, faça chuva ou faça sol, independente de horário, tem que estar nos seus postos de trabalho, pois correm o risco de retaliações por parte dos empregadores, mesmo sabendo que a sua ausência nas ruas pode parar toda uma cidade, ao contrário dos deputados, sempre envolvidos em escândalos e de pouca produtividade?

Porque para os cobradores, pessoas humildes, muitas sem qualificação profissional, o senhor deputado parece ficar exultante com a possibilidade de ficarem sem empregos com a implantação total da roleta eletrônica e não prega o mesmo para acabar com roubalheira generalizada que tomou conta de todas as esferas políticas brasileiras e propõe a extinção do senado, câmara dos deputados e câmaras de vereadores?

Lhe dá prazer chutar cachorro morto?

Desconhece o jornalista Políbio Braga as conseqüências imediatas que acarreta um enorme contingente de desempregados? Desconhece o importante papel social que as empresas de ônibus influenciam nas comunidades que atuam, muitas carentes, gerando empregos e aquecendo a economia local e, com isto tirando inúmeros jovens da marginalidade, dando-lhes um salário decente, aliviando o sucateado INSS, com direito a plano de saúde em grupo e outros direitos trabalhistas cada vês mais raros no emprego formal?

Para o jornalista Políbio Braga, problema social é resolvida com a construção de novos presídios e um numero cada vês maior de policiais nas ruas?

Se para todas estas questões a resposta foi sim, começo a questionar até a competência como jornalista do senhor Políbio Braga, uma visão rancorosa e distorcida dos fatos, pois como economista e parlamentar, sua atuação é nula e nem poderia ser diferente. Política se faz com coração, com humanidade e compaixão. Se o senhor teve oportunidades na vida, independente da sua origem, deveria trabalhar que outros tivessem o mesmo. Boa infância, boa educação, boa infra-estrutura nas comunidades em que vivam, e oportunidades de se profissionalizar e dar uma vida digna aos seus.

Políticos gostam de ser lembrados, especialmente de quatro em quatro anos, e isto eu posso garantir, o senhor não vai sair da minha memória.

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