sábado, 29 de julho de 2017

O sequestro do bonde.


Todo mundo enxerga os antigos bondes de Porto Alegre como algo glamoroso e eficiente, mas isso aos olhos de hoje. Na época, era bom e era ruim. Barulhentos com suas rodas de ferro, para o fluxo do trânsito, eram um desastre, porque a entrada e saída dos passageiros pelas quatro portas obrigava todo mundo a parar. Menos mal que Porto Alegre tinha menos de 30 mil automóveis até 1968, quando o grosso das linhas foi desativado.
 Havia dois modelos. Um mais longo, onde viajava-se relativamente bem. Era melhor ficar de pé, porque os bancos eram de madeira e nada funcionais. Em linhas menos votadas, como Navegantes, a Carris utilizava o bonde gaiola. Mais curto, tinha só um par de rodas, o que o transformava em uma batedeira assim que o motorneiro imprimia um pouco mais de velocidade.
 Vocês não têm ideia do que era viajar no gaiola quando ele começava a chacoalhar longitudinalmente. Tinha que se segurar no encosto do banco da frente. Boa parte dos que viajavam de pé tiveram que desenvolver mecanismos motores para manter o equilíbrio. Alguns gostavam de viajar dependurados nas portas, de prontidão para escafeder-se quando chegava o cobrador. Eram chamados de pingentes e não raro um deles se estatelava no chão e entrava nas estatísticas.
 Certa vez, alguns pândegos sequestraram um bonde na frente da Lancheria Paris, que existe até hoje, na rua Riachuelo quase Borges de Medeiros.  O motorneiro, o cobrador e o fiscal estavam fazendo um lanche – eram chamados de tranviários – quando a turma se apossou dos controles. Para garantir a integridade física e evitar a cana – era no tempo do regime militar – botaram um general da reserva a bordo, devidamente abastecido com generosas doses de gim-tônica. Era noite alta, e a turma zanzou por diversos bairros da cidade até que, prudentemente, deram às vilas Diogo, expressão da época para fugir, debandar. O general, nascido lá pelas bandas do Alegrete, achou que era uma viagem comemorativa patrocinada pela Carris. E com serviço de bordo. A essa altura, a Carris inteira estava em polvorosa com o “sequestro”.
 Viajar nas portas em dias de frio e chuva era um suplício. Hoje, tudo parece bonito e mesmo gerações que usavam os chamados “elétricos” têm saudades deles. Eu digo o seguinte: não é que eu tenha saudade dos bondes, eu tenho é saudade do tempo em que eles eram parte da paisagem porto-alegrense.
Foto da internet sem identificação de autor.

Extraído do blog do jornalista Fernando Albrecht em
http://fernandoalbrecht.blog.br/

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Algumas considerações sobre a proposta de mudança no transporte coletivo.

                               Pois bem, hoje (26/07) foi encaminhada a câmara de vereadores de Porto Alegre a proposta do projeto de lei que visa alterar as regras atuais para a obtenção de gratuidade no transporte público da capital.
                               Como previsto, a principal mudança será impor regras e limites aos atuais beneficiários e, ao mesmo tempo, extinguir a lei municipal que diminuía a idade mínima já prevista na constituição federal de 65 anos em todo o território nacional para 60 anos aqui. Uma clara aberração. Neste caso, quem já goza do beneficio continuará usufruindo, barrará apenas quem completar os 60 após a promulgação da lei.
                               Entre outros itens do projeto, consta a redução da quantidade máxima diária de viagens para estudantes, idosos, pessoas com deficiência e seus acompanhantes, portadores de HIV, menores da FASE e FASC. Até então o limite máximo para muitas destas isenções era de 8 viagens diárias. Pelo projeto passa a ser 4 (em caso de necessidade de mais passes o portador deverá se dirigir ao órgão responsável e fazer a solicitação com justificativa).
                               Também, no caso dos estudantes, além de comprovante que está estudando, a renda familiar máxima não poderá ultrapassar o valor de três salários mínimos, atualmente em R$ 2.811.
                               Justo.
                               É bom lembrar que no caso de menores carentes sem condições de pagar nem os atuais 50% da tarifa do cartão escolar, a prefeitura, via FASC, oferece o cartão VOU A ESCOLA, com custo zero e garante 2 viagens diárias (ida e volta da escola).
                               Professores perderiam o direito ao uso do cartão escolar e passariam a utilizar o VALE TRANSPORTE como qualquer trabalhador.
                               PMs e membros da GUARDA MUNICIPAL, independente do uso da farda ou não, passariam a utilizar o cartão de isenção.
                               Até ai, previsível. Mas alguns itens chamam a atenção, entre eles aumentar o tempo de vida útil da frota.
                               Para lembrar, até o tempo em que o senhor Alceu de Deus Collares foi prefeito – 1986/1988 – a frota de onibus era velha e precária. Naquele tempo era permitido comprar veículos usados, que já vinham na unha de outros estados. Podia-se por carroceria nova sobre chassis velhos, inclusive alongar esta estrutura comprometendo a segurança de passageiros e tripulação. Gambiarra. E os veículos circulavam muito, mas muito mesmo. Alguns, de tão podre, era possível ver o asfalto através dos buracos do piso.
                               Nem por isso a passagem era barata. Basta fazer uma pesquisa na biblioteca e pesquisar os jornais da época. As greves dos rodoviários eram constantes e várias denúncias eram feita ao titular da pasta do transporte. Por sinal o mesmo tinha participação acionária em uma das empresas.
                               Então o PT, na sequência, assumiu a prefeitura e ficou 16 anos no paço municipal e, mesmo com suas trapalhadas iniciais, implantou a qualificação do transporte público da capital. Proibiu-se a compra de veículos usados, proibiu-se reencarroçar sobre chassis velhos. Ao mesmo tempo reduziram o tempo de vida útil da frota. Não sei se havia algum limite máximo antes, lembro-me de carros muito antigos circulando, mas atualmente o limite é de dez anos. Havia a intenção de diminuir mais ainda, para sete anos.
                               O que acontece?
                               Para quem não sabe, todos os insumos que envolvem a fabricação de um ônibus, como de qualquer outro veículo, é cotado em dólar e toda a aquisição é feita através de financiamento bancário. Mas, diferente de outros setores, o empresário do ramo de transporte coletivo não pode repassar a flutuação da moeda americana aos seus clientes. E em tempos de crise, como agora, este mesmo empresário tem que arcar com o prejuízo. E quando finalmente termina de quitar a divida daquela unidade vê-se obrigado a se desfazer dela e assumir nova divida de longo prazo.
                               Pela proposta apresentada cada unidade poderá circular até 12 anos.
                               Um alívio para o empresário.
                               Outro ponto do projeto, este polêmico, cria brecha para a eliminação gradual do cobrador.
                               Pelas regras atuais é obrigatória a presença de dois tripulantes em cada veículo, o motorista e o cobrador. Se for aprovado, o novo sistema de funcionamento determina que em determinados horários e em determinadas situações esta obrigatoriedade deixa de existir, ficando assim:
-          ‘’As empresas não serão obrigadas a repor o cobrador em caso de pedido de demissão ou justa causa, aposentadoria e morte. Não será exigida a presença do cobrador em viagens entre às 22 horas e 4 horas, domingos, feriados e dia  de passe livre’’.
O começo do fim.
Neste momento do Brasil, onde o presidente está prestes a mudar a legislação trabalhista, propondo entre coisas a flexibilização da CLT e o enfraquecimento dos TRTs, o trabalhador, trabalhadora, rodoviário exercendo a função de cobrador (a) acordara sempre inseguro, temeroso de ser ele, ou ela, o próximo a ser demitido por justa causa para preencher a cota diária até por fim extinguir no mais breve espaço de tempo esta ocupação. E quando isto acontecer, a quem vai poder recorrer para resguardar seus direitos e sua dignidade?
Acha que estou exagerando?
Nos anos 90, quando trabalhei nesta mesma função numa das empresas de ônibus de Porto Alegre, vi muito colega assumir o serviço e, ao terminar o expediente, ser encaminhado ao DP para ser sumariamente demitido em justa causa por supostas irregularidades na catraca, ou outro motivo qualquer, sem nenhuma comprovação ou direito de defesa. Anos depois, falando com um fiscal da época, o mesmo me confirmou que, sim, havia a manipulação da roleta, não por parte do funcionário, mas por ordem da diretoria quando queria se livrar de alguém. Ele era um dos encarregados de fazer o serviço sujo.
Enquanto o senhor prefeito se preocupa apenas em ser ‘’muderno’’ eu faço a seguinte reflexão:
-                                                Quanto custa manter um trabalhador no seu posto de trabalho, garantindo dignidade para si e sua família?
-                                                Inserido na passagem, no custo unitário; dois centavos, três centavos, quem sabe cinco centavos?
-                                               E, quanto custa para a sociedade manter um preso na cadeia e todo o aparato de segurança pública envolvida?
-                                              E os vários projetos sociais, incluindo a distribuição gratuita de medicamentos, quanto custa para o contribuinte?
-                                            Sei não, fico aqui pensando sobre a relação custo x beneficio e chego à conclusão que sai mais barato manter este posto de trabalho.
-                              Já o prefeito poderia usar sua inclinação para o moderno e o novo para aplicar em outros setores da cidade, carente de atenção e, principalmente, criatividade de seus últimos gestores.
-                                            Isto para não falar dos problemas básicos.
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quarta-feira, 26 de julho de 2017

Isenções e subsídios no transporte público. Questão de igualdade ou demagogia?

          Nos últimos dias, um dos assuntos do momento na esfera do município de Porto Alegre é sobre a proposta do executivo levado à câmara de vereadores propondo uma série de restrições a quem postula obter isenções ou subsídio - caso dos estudantes - no transporte público da capital.
          Na minha opinião, não importa o prefeito, independente do partido, se é de esquerda ou direita, este assunto deveria ser discutido com toda a sociedade que mora e paga seus tributos na capital, afinal atinge o bolso de todo o mundo.
          E já faz algum tempo que a voz da maioria não é ouvida por nossos legisladores, que estão mais preocupados com seus próprios interesses.
          Antes de mais nada, para compreender a composição da tarifa veja este gráfico:


          E, claro, uma coisa não pode ser desassociada de outra, é preciso saber sobre a receita. Então veja este outro gráfico:


          Se tu repares bem, 65% dos usuários do transporte público da capital mantém toda a estrutura funcionando. Mas este não é um número real. Existe outro problema cronico, este informal, que deixa a tarifa mais cara, talvez o pior de todos, que vem a ser a evasão de receita.
          Em outras palavras, aquela carona amiga que o cobrador oferece para aquela menina sorridente, que tu já a viu em todos os ônibus da linha; Aquele cara simpático que não passa a roleta e desce calmamente pela frente; o mesmo cobrador quando recebe o pagamento da passagem em dinheiro mas na hora de liberar a catraca utiliza um cartão qualquer indevidamente ou simplesmente convida o passageiro a descer pela porta dianteira; A moça gestante que paga a passagem e o cobrador não dá a volta na roleta; A invasão pela porta traseira, seja por bando ou de maneira isolada, por coação ou não; Tudo isso e mais outros macetes contribuem para diminuir a arrecadação das empresas e, consequentemente, a aumentar o valor da tarifa.
       
         Agora vejamos a participação dos vários segmentos de passageiros que utilizaram o transporte público de POA em 2016:



           E, neste outro gráfico, vamos conhecer as isenções que mais impactam na passagem.



          Não quero aqui fazer qualquer tipo de julgamento, dizer se é justo ou não. Nada disto. O que pretendo mostrar aqui são dados estatísticos. Que cada um tome conhecimento, análise e forme sua própria opinião.
          De acordo com a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), Porto Alegre possui um dos mais elevados índices de gratuidade. Enquanto a média nacional é de 22%, a capital gaúcha tem 35% do valor total das passagens relativo às isenções.
         Pela lei municipal 5.624/1985, pessoas entre 60-64 anos ficam desobrigados de pagar passagem. Isto deveria valer para quem é morador de Porto Alegre, mas como no Brasil serviços de fiscalização e acompanhamento foram feitos para não funcionar, na prática basta dar endereço de qualquer um que more na capital para usufruir do beneficio.
          Mesmo que o artigo 230 da constituição federal estabeleça que pessoas acima de 65 anos estão isentos de pagar tarifa em transporte público em todo o território nacional, aqui em nossa capital algum nobre edil resolveu fazer caridade com o chapéu alheio ampliando o direito diminuindo a idade a partir dos 60 anos. Para lembrar, até 2030 a população de pessoas nesta faixa etária terá suplantado os mais novos. O que significa? Se algo não for feito agora, o serviço de transporte público irá a falência.
          Vale citar também o uso indiscriminado do passe escolar pelos estudantes que, alguns não satisfeitos com o subsídio de 50%, suficiente para seu deslocamento escola x casa, casa x escola, escola x trabalho, trabalho x escola, querem ampliar ainda mais este direito, abrangendo atividades extra-escolares distorcendo a finalidade da ideia original.
          Num país com desigualdades tão grandes como o nosso não quero aqui dizer que todas as isenções devem ser eliminadas mas acredito que deveria haver algum critério para selecionar quem merece usufruir deste benefício. Se pergunte, é justo pessoas aposentadas, com altos salários andem de graça? Vale o mesmo pensamento para estudantes e qualquer outro tipo de beneficiário de qualquer isenção.
          Está na hora de repensar estas distorções.
        
       

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Cinegrafista amador que filmou Porto Alegre em 1946





Cinegrafista amador filmou Porto Alegre em 1946
Em agosto 1946 o então presidente dos Estados Unidos Dwight D. Eisenhower veio em comitiva visitar o Brasil, permanecendo no Rio de Janeiro. Um dos membros da comitiva, o dentista da Filadélfia, Harry B. Wright resolveu dar uma escapada para os pampas e fez estas imagens fantásticas. E o mais interessante é que a filmagem foi feita em cores. 

domingo, 19 de março de 2017

 Composta em 1946 pelo então pretendente a estudante de direito Alberto do Canto esta marchinha de carnaval dedicada ao parque da redenção, gravada quatro anos depois para ser utilizada como trilha sonora de um pequeno filme sobre a cidade.


       Minha cidade tem belezas
       Onde os olhos não se cansam de estar.
       Em Porto Alegre há recantos
       Que vale a pena a gente visitar.
       Sinto as palavras tão pequenas
       E tão grandes seus encantos,
       Que um somente, um apenas entre tantos,
       Neste samba vou cantar.
       Redenção das crianças, dos velhos e dos namorados,
       Dos fotógrafos, dos vendedores e soldados.
       Redenção das estátuas, dos lagos e dos chafarizes,
       Dos viveiros, dos peixes, das aves de todos os matizes.
       Seus canteiros floridos são sempre um convite aos pintores,
       Linda inspiração aos poetas e compositores.
       Redenção é um parque variados
       Ao agrado do frequentador
       Tem histórias, comédias, romances de amor.

        Porto Alegre, história e vida da cidade - 1973 - Riopardense de Macedo - edições URGS.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Sobre o UBER.

          Ontem a tarde, bem no horário da tempestade, uma moça me pergunta o número do prédio. Estava chamando pelo serviço do UBER. Informo e acrescento que provavelmente ela iria pagar caro pelo deslocamento. Uma das características deste serviço é ter preço baseado na demanda tanto de passageiros quanto de veículos disponíveis, horário, condições climáticas, etc. Ou seja, acabando com o serviço tarifado do táxi, sempre haverá um motivo de extorsão. Ela diz, capaz. Paguei dez pilas pra vir até aqui - era perto -, o máximo que eles vão querer acrescentar é outros dez. Cobraram 50. Ela achou um absurdo. Preferiu encarar a chuva e pegar um ônibus.